terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Um papo complicado

No outro dia, lá estavam eles. Cada um, sentado de um lado da sala. Separados. Tinha um clima pesado entre eles sabes?Não se olharam em momento algum, completamente “estáticos”, agindo como se não se conhecessem. E assim ficaram ate o final da primeira aula. O sinal bateu. O Guto já estava próximo da porta da sala quando o Hugo da um pulo da cadeira e segura o braço do Guto. Jaqueline se assusta com o movimento repentino do rapaz. O Hugo encara o Guto por certo período de tempo, como se esperasse que ele dissesse algo. Nenhum som sai de sua boca. Hugo solta o braço do Guto e volta para seu lugar. Sua sensação neste momento é inquietante. Começa a se sentir sufocado. Talvez não seja à hora afinal. A sala a sua volta fica apertada. Pequena, quase que sem ar. Nunca se sentiu dessa forma. Mais uma coisa ele sabe. Ele tem que falar com o Guto. Jaqueline se levanta e vai atrás do Guto, mesmo sabendo o que houve, ela sente a necessidade de estar perto dele. Seguindo pelo corredor, pode agora observar as mudanças que aconteceram durante as férias, as paredes que antes estavam desbotadas, apresentavam um azul celeste bem cuidado. O pátio principal agora coberto e com grandes janelas verticais, que fazem aquela parte da escola parecer com os ginásios americanos. Ela sabe onde Guto vai estar. Não há duvidas. Ela o conhece muito bem e ele não costuma mudar de hábitos, talvez por isso seja tão fácil saber as coisas sobre ele. Ele é bastante previsível. Em mais alguns passos ela esta em frente à biblioteca. Abre aporta devagar e como esperado La esta ele. Lendo um exemplar de Alice nos pais das maravilhas. Típico dele, nada como fugir da realidade pra não ter que agir quando deve. Uma forma de fugir das responsabilidades.
-Guto! Fala sério, vem pra sala. - ela se senta ao lado dele e segura a pagina-vamos vai ter atividade pra nota e você e ótimo e português vamos.
-sabe o que é Jaque?-ele se vira e a encara nos olhos-não sei se eu estou preparado pra isso. Sei La não esperava que isso acontecesse. Eu estava gostando dele. Serio... Mais foi um choque. Nunca poderia imaginar que ele também sentia algo assim. Se é que ele sente o mesmo que eu. Acho melhor nem pensar em levar isso adiante.
-certo querido, mais ficar aqui sozinho lendo livro infantil não é a sua resposta tão pouco a solução. -ela pega ele pela mão e o tira da biblioteca. Seguem novamente pelo pátio e chegam ate a porta da sala de aula.
O trabalho de português foi basicamente para eles lerem um pequeno trecho de um texto e a partir dali, criarem toda uma historia que independentes da continuação deveriam envolver os fatos do texto original.
Eles desenvolveram e a historia de um rato que queria fugir de casa em busca da ‘lua de queijo’, uma historia muito gostosa afinal. Aos poucos as duplas foram acabando e saindo da sala. Jaque e Guto já tinham acabado porem o Guto pediu a Jaque para só entregarem o texto assim que o Hugo saísse da sala. Só que isso não aconteceu. O Hugo estava parado na carteira, junto com a Luiza, que fazia questão de grudar nele sempre que podia. Ele estava o Guto levantar, pra ele tomar a coragem de falar oque devia ter falado mais cedo. Irritada com o “medo de levantar” Jaqueline pega o texto e entrega a professora. Guto a encara como s ela tivesse feito a pior coisa do mundo. O Hugo se levanta e fica ao lado da porta com uma expressão seria quase tão seria quanto à expressão do dia que ele entrou na sala. Guto não vai ter como fugir por muito tempo. Então ele se levanta, e olhando para frente com uma cara de quem chupou limão. Assim que chega perto da porta o Hugo levanta e fica na frente dele.
- Nos temos que conversar-ele olha fundo nos olhos dele e aguarda a resposta.
- Escuta, eu acho que... O que você quer em?-seu to de voz fica completamente alterado.
- A gente pode conversar em um lugar com menos gente?-
- Certo, vamos para a biblioteca. Lá é vazio o dia inteiro. Acho que as pessoas ainda não acharam o caminho de lá- Eles atravessam o pátio em silencio, no corredor ele topa com a Jaqueline no lado do bebedor, junto com a Clara falando de mais um dos seus experimentos de customização de roupas. Ela olha pra ele com uma careta que dizia ‘vai lá e fala com ele, senão eu mesma faço isso’. Pelo menos foi isso que ele traduziu da careta. Guto abre a porta da biblioteca e entra seguido do Hugo. A sala não era pequena, porem parecia apertada devido à grande quantidade de livros que tinha ali, muitos velhos e empoeirados, e no meio de todos aqueles livros ate uma maquina de escrever podia ser vista. “coisa rara de se ver hoje em dia” pensou Hugo.
- pronto, estamos aqui. Pode falar- Guto se encosta-se à cadeira e espera Hugo falar.
- espero que você não tenha ficado com raiva de mim- Hugo olha com um jeito quase que suplicante.
Ele se aproxima um pouco. Guto conserta sua postura, querendo parecer mais serio.
- Olha, sobre oque aconteceu ontem, eu queria dizer que-
-Eu quero ficar com você! Hugo interrompe Guto repentinamente. -poxa eu pensei que você também... Olha o que você tem a perder? Guto o olhou com um jeito surpreso.
-por que eu? O que você viu em mim? Isso não é certo. Isso não é normal!- Por um momento o Hugo fica serio então ele diz:
-Por que eu quero ficar com você! Te proteger, te defender. Fazer carinho. Eu sei que você também quer. E você sabe disso. Não é?- Guto já não tinha mais argumentos. Não mais depois do que ele acabou de ouvir. Seus esforços para negar a verdade, sua vontade terminaram. Hugo se aproxima dele mais uma vez, agora já quase colado com o Guto.
-eu quero você!- Guto cedeu. Então se beijaram para Guto o melhor beijo da vida dele. Não foi algo forçado e sim algo que ele queria verdadeiramente, que queria ardentemente tanto quanto o ar que ele respirava. E então ficaram juntos ali por duas aulas. Se conhecendo e tentando não pensar no que havia fora daquela sala. Quando a sirene tocou, sinalizando o fim do intervalo, eles se recompuseram e foram em direção a sala. Novamente calados mais com um ar de cumplicidade, que foi captado por Jaqueline. Ela percebeu na hora. Ela ficou feliz pelo amigo mais triste por saber que já não havia mais chances. Cada um sentou em seu lugar e continuaram com suas atividades, porem com olhadas rápidas ora ou outra. No intervalo da aula o Guto chamou a Jaque e sentaram-se no fundo da sala. Ele contou a conversa, ou melhor, o monologo que eles tiveram, já que ele praticamente não abriu a boca. Ele ouvia tudo pacientemente, a idéia de seu melhor amigo ter se tornado gay era surreal. mais ela iria se esforçar.
-nossa não sei nem oque dizer. Nunca ia imaginar você me contando algo assim. Mas se você acha que pode dar certo vai em frente-ele olha pra ela pensativo.
-não sei. Acho que pode dar certo, mais como vamos ficar juntos? Vamos ter que dar um jeito nisso. Não sei por que mais eu tive a impressão de que ele não se importa tanto com esses detalhes.
- oras! nao foi ele que te beijou?Acho que ele já deve ter feito isso. Ele parece ter convicção nas coisas que diz.
-verdade, mas não vou ficar pensando no passado dele tão pouco se ele já ficou com alguém ou não, pelo menos não agora.
-você que sabe. De qualquer forma, boa sorte... E ai vem ele- Guto se vira e vê o Hugo se aproximando.Guto solta um sorrisinho e afasta a cadeira para ele se sentar com eles.os três começaram a conversar sobre o que fariam no fim de semana. A ultima aula começou e eles voltam para os seus lugares. A Luiza arrasta a cadeira para perto do Hugo e começa a puxar papo. A ponto de a professora chamar sua atenção. O sinal toca. Todos saíram. Conversamos um pouco na frente da escola. Hugo se exalta quando lembra que seu pai o está esperando.
- Droga! Tenho que ir pessoal! Esqueci que tenho que sair com meu pai!- o seu primeiro impulso foi se inclinar para beijar o Guto e parou ao lembrar que estava em público. Simplesmente da um abraço, e aperta sua mão. Ele se vira e desce a rua, enquanto Guto observa ele sumir quando vira a esquina. Contudo outra pessoa também o observa. O homem encima da moto o segue com os olhos enquanto ele vira a esquina, ele lança um olhar reprovativo para o Guto e liga a moto.
-Te achei!-ele sussurra pra ele mesmo enquanto entra numa rua logo à frente.